quarta-feira, 26 de agosto de 2009

O General Firmino de Paula

General Firmino de Paula (sentado) e seu destacamento em Santo Ângelo.


A cidade de Santo Ângelo foi marcada pela influência do Partido Republicano no inicio de sua história político-administrativa. Várias figuras republicanas tiveram influência na política a nível estadual e federal. Podemos citar nomes como Pinheiro Machado e Venâncio Ayres, hoje nomes de praça e rua em nossa cidade e, no entanto pouco nos interessamos em saber suas histórias e analisar a simbologia dessas figuras como influencias na formação da identidade político-social da nossa sociedade.
Mas essa é uma discussão que precisa ser analisada a fundo, num outro momento, porém merece estar presente, quando relembramos um pouco da história de uma das figuras mais polêmicas e emblemáticas da política local: General Firmino de Paula, o primeiro intendente de Santo Ângelo de 1892 a 1896.
Firmino de Paula foi defensor ferrenho do regime republicano instaurado por Borges de Medeiros e Júlio de Castilhos, era intendente da Santo Ângelo no momento em que se instalou a Revolução Federalista de 1893. Batalha nessa em que se empenhou defendendo os interesses de Júlio de Castilhos, expoente de uma política republicana calcada no presidencialismo e norteada pelos princípios filosóficos do positivismo e que encontrava consonância com o governo a nível federal. Do lado contrario estavam os federalistas, que lutavam contra o sistema castilhista, denunciando os desmandos do governo republicano e buscando uma forma de governo baseada no parlamentarismo e no fortalecimento do Brasil enquanto federação.
Firmino de Paula que passara a maior parte de sua vida em Cruz Alta, era rico fazendeiro, filho do Barão e da Baronesa do Ibicuhy, foi convidado por Julio de Castilhos a assumir a administração da nova freguesia de Santo Ângelo. Quando se instaurou a Revolução Federalista, através da organização de uma frente de combate, o General contribuiu para a vitória dos republicanos.
O general era conhecido entre os seus pela sua autoridade, muitas vezes, exercida em tempos de guerra, pela força física e pelos requintes de crueldade. Muito sangue se derramou pelos campos gaúchos, muitos corpos sem cabeça tombaram. Um dos fatos mais interessante é o que envolve a figura de Gumercindo Saraiva, caudilho federalista, que não teve sossego nem depois de morto pelas tropas republicanas.
Foi uma cena tenebrosa o que as tropas do chefe republicano Firmino de Paula cometeram. Descoberta a sepultura do caudilho federalista Gumercindo Saraiva, no cemitério dos capuchinhos de Santo Antônio, dois dias depois de sua morte, ocorrida no Caroví em 10 de agosto de 1894 (no estado do Rio Grande do Sul), ordenaram sua profanação. Os seus restos mortais, dizem que amarrados numa estaca ou numa cruz improvisada, foram então expostos no portal do cemitério enquanto que os cavalarianos tiveram ordens de desfilar em frente aos despojos já carcomidos do inimigo. Ali estava "o bandido do Gumercindo", a quem as forças governistas perseguiam sem descanso há dezessete meses.Muitos dos republicanos não resistiram ao ódio que os consumia e cuspiram sobre aquela massa amorfa de carne putrefata e pó.” (Crônica de Aparicio Saraiva, do prof.W.Reyes Abadie, Montevidéu em http://educaterra.terra.com.br/voltaire/500br/gumercindo.htm ).
Na Revolução de 1923, o general, apesar da idade já avançada, lutou ao lado de Borges de Medeiros, sucessor de Julio de Castilhos o que, conforme o Álbum do Partido Republicano de 1934, “lhe trouxe como conseqüência abalo para a saúde”. O partido republicano perdurou no poder mais de três décadas, entre Julio de Castilhos e Borges de Medeiros, o que aconteceu de forma verticalizada nas administrações a nível local. Os intendentes nomeados pelo governo estadual eram a forma de manter a hegemonia do poder no interior. Se analisarmos dentro da esfera federal, não eram mais do que simples expoentes locais de uma república proclamada pela minoria oligárquica do país e que defendia os interesses de poucos enquanto o povo era esquecido. Denúncias que viriam a tona anos mais tarde com movimentos e levantes sociais em todo o país, como a Coluna Prestes, por exemplo.
No Jornal A Semana de Santo Ângelo em 21 de agosto de 1919, órgão de imprensa expoente do Partido Republicano, Firmino de Paula vinha a público expressar seu repúdio contra as “calúnias” levantadas sobre sua pessoa.
“Diz esse individuo, que usa o nome de Gaspar Martins, em successivos pasquins, espalhados por todo o Rio Grande, que, ha vinte annos, o povo de Cruz Alta geme sobre a oligarchia da família Paula, que o opprime e avilta, peado em toda sua liberdade, sem garantias de suas propriedades e tudo mais quanto o cerebro de um desalmado pode produzir. Pois bem! Eu provarei que não tomei de assalto as posições que ocupei em Cruz Alta. Nenhum interesse tive em dirigir os destinos políticos e administrativos desta terra, e si, a isso accedi, foi por instancias reiteradas de meus amigos drs. Julio de Cartilhos e Borges de Medeiros, com graves prejuízos materiais”.*
Conforme escritos do Album do Partido Republicano, Firmino morreu pobre depois de ter possuido grandes fortunas aos 86 anos de idade.
Acusações freqüentes, casos escusos, má aplicação de dinheiro público, nomeações de parentes, coronéis e famílias que se perpetuavam no poder, a invisibilidade do povo humilde, a utilização partidária e pessoal dos meios de comunicação eram práticas freqüentes desse período político da história brasileira. Que bom que hoje os tempos são outros e que tudo é bem diferente, não é?

* Na transcrição foi mantida a grafia da época.

Quem desejar saber mais detalhes da história do general, indico a leitura de CAVALARI, Rossano Viero. Os Olhos do General- Por que Firmino de Paula foi um dos homens mais temidos de seu tempo? Martins Livreiro-Editor. Porto Alegre. 2007

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