segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Natal de 1919

Reunião em família. Década de 20. Familia Bittencourt.

Na edição do Jornal “A Semana” de 1º de janeiro de 1920, encontra-se o relato do “Natal dos Pobres”, promovido na tarde do dia 25/12/1919, por famílias da Vila de Santo Ângelo. Segue abaixo a transcrição (com a ortografia da época) de alguns trechos da reportagem:

“Conforme haviamos annunciado, realisou-se n’esta Villa, no dia 25 de dezembro findo, dia universalmente consagrado à família, a commovedora e attrahente festa das creanças pobres, que, como era de esperar, correu sempre animadíssima e por entre as mais vivas expressões de alegria.
(...)
A distribuição dos brinquedos, doces e roupas que se fez na melhor ordem, mediante cartões previamente distribuidos, teve começo às 16 horas, na Praça Pinheiro Machado, onde se achava levantado um bello caramanchão feito a capricho sob a competente direcção do sr. Major Tarquínio Oliveira.
(...)
A banda do Batalhão Ferroviário, gentilmente cedida pelo seu commandante, cap. Mário da Silveira Velloso, tocava de quando em vez alguns trechos de seu variado repertório.
Uma comissão de senhoras, senhoritas e cavalheiros procedia à distribuição dos brinquedos com uma regularidade e ordem bem difficeis de observar em festas d’esta natureza.
(...)
Às 21 horas realisou-se no salão do Biographo Ideal o annunciado concerto em beneficio das obras da Egreja e cujo programa, caprichosamente escolhido muito agradou a numerosa assistencia.
(...)
No intervalo da primeira para a segunda parte fez uso da palavra o nosso collega d’ “O Alfinete”, Almeida Bastos, que produziu uma breve e substanciosa oração, enaltecendo a grande obra da piedade humana para com os pobres e humildes e fazendo realçar a acção verdadeiramente apostolica da Sra. D. Nohemia Velloso que não duvida sacrificar o repouso do lar em beneficio dos pobresinhos.
As suas ultimas palavras foram justamente acolhidas com uma salva de palmas.
Não tendo habito de regatear louvores a quem os merece, ao encerrarmos essa noticia, seja-nos permittido felicitar a commisão promotora d’estas festas, composta da Exma. Sra. D. Nohemia Velloso, senhorita Julia Krüger, Cap. Mario Velloso, Major Tarquínio Oliveira, Apparicio Prado, pelo bom exito nos seus trabalhos, especialmente à Exma. D. Nohemia que com seus trabalhos e esforços, soube conquistar o justo titulo de alma bondosa e querida dos pobres que lhe beijam as mãos agradecidos”.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

As Cavalhadas

Cavalhada em 1903. Praça Pinheiro Machado.


A cavalhada é um folguedo de origem européia muito difundido no Brasil durante o período imperial. Baseia-se na teatralização da Batalha medieval do imperador Carlos Magno e os 12 pares da França contra os sarracenos.
O catolicismo exacerbado que movia o reino português, fez com que a família imperial motivasse o festejo como forma de reafirmar a vitória dos cristãos sobre os mouros. O folguedo teve grande difusão no Brasil, em estados e cidades com grande concentração de descendentes de portugueses. Sendo ainda uma tradição em cidades do centro e do nordeste do país.
O espetáculo consisitia em um grupo de 24 cavaleiros, 12 com vestimentas com detalhes em azul - representando os cristãos - e 12 com vestimentas vermelhas - representando os mouros. Os cavaleiros usavam espadas e lanças, tinham ainda personagens como o povo, representado por máscaras porta-estandartes dos dois exércitos, as embaixadas e a nobreza - geralmente representada pela rainha (homem vestido de mulher).
Em Santo Ângelo, a tradição das cavalhadas foi trazida pelos primeiros repovoadores de origem portuguesa e os registros fotograficos que dispomos retratam essas festividades nos primeiros anos do século XX. Com motivações religiosas, as encenações aconteciam na praça da Vila durante dias consecutivos, terminando sempre com a vitória dos cristãos sobre os mouros, com missa na Paróquia central para comemorar a vitória, além de grande baile no Clube Gaúcho.
A fotografia acima retrata a cavalhada ocorrida no ano de 1903, em comemoração ao 1º ano do aniversário do Clube Gaúcho, junto a Praça Pinheiro Machado.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Casa Comercial Augusto Franke




As fotos acima são do prédio da esquina da 25 de Julho com a Marechal Floriano no ano de 1929. O comércio de propriedade do Sr. Augusto Franke, possuia também uma bomba de combustível que abastecia os veículos da cidade e região.
O comércio estava localizado na divisa entre a cidade velha (chamada de Brasil, construida a partir do espaço da antiga redução e colonizada em sua maioria por descendentes de portugueses) e a nova cidade que começava a se desenvolver da rua 25 de julho em direção a Zona Norte (chamada popularmente de Alemanha, devido a colonização de descendentes e imigrantes desses paises).
Uma curiosidade era uma suástica que estava impressa na bomba de combustível e nos galões de gasolina e óleo vendidos pela loja comercial.
Atualmente o prédio dá lugar a uma lanchonete, na esquina do Calçadão da 25 de Julho, e apesar de bastante descaracterizado em suas aberturas, conserva ainda em suas platibandas os desenhos e a volumetria originais.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Monumento ao Índio Sepé Tiaraju

Projeto do Monumento que seria executada por Valentin Von Adamovich.


Monumento esculpido por Olindo Donadel, logo após sua inauguração na década de 60.


Na coleção fotográfica de Bruno Schmitd, junto ao Arquivo Histórico Municipal está a foto do projeto do "Monumento ao Índio Sepé Tiaraju". A obra foi desenhada por Léo Rockembach, durante a administração do prefeito Odão Felipe Pippi, e deveria ser construída pelo escultor Valentin Von Adamovich, em 1960.
O Monumento deveria ser erguido junto a Praça da Bandeira (atual espaço em frente ao Teatro Municipal Antônio Sepp), esculpido em pedra grês, medindo cerca de 6 metros de altura. Porém, a enfermidade de Adamovich não permitiu que o projeto fosse efetivado.
Junto ao Museu Municipal é possível encontrar a escultura um índio com uma lança nas mãos. A imagem inacabada era parte do projeto. A figura em tamanho natural transmite em sua feição um certo ar de sofrimento, ela transpõe a dor que fazia parte do cotidiano do artista naquele momento.
A morte de Adamovich em 1961 impediu que o artista realizasse mais essa obra. O Monumento ao Índio Sepé Tiaraju que encontramos hoje em frente ao Teatro Municipal Antônio Sepp, é outro projeto executado pelo artista santo-angelense Olindo Donadel.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Adamovich: Uma história de vida fascinante

Catedral Angelopolitana - o frontispicio adornado pelas esculturas dos Sete Santos Missioneiros: obras de Adamovich.


Outra obra de Adamovich em São João Batista, Entre-Ijuis. A Obra é uma homenagem ao seu conterrâneo Pe. Antônio Sepp e faz alusão a fundição de ferro nas Missões.

Uma história de vida fascinante. Um artista marcado por suas escolhas, pelo período histórico em que viveu, pela dor e pela força de sua arte. Um artista que trocou a nobreza européia pela vida no interior do sul brasileiro. Viveu, trabalhou e morreu em Santo Ângelo.
As obras de Valentin Von Adamovich são o foco das lentes da máquinas fotográficas dos turistas na catedral, no monumento ao Pe. Antônio Sepp em São João Batista e em outras inúmeras obras espalhadas pela região e pelo estado. No frontispício da Catedral Angelopolitana, os Sete Santos perduram ao longo do tempo.
Foi durante a obra do fronte da Catedral que o fim de Adamovich se desenhava. Atingido durante a queda de um dos blocos de pedra, tendo um rim esmagado, conforme relato de sua esposa ao professor Mário Simon*, é que se desenvolveu um tumor que levaria o artista a morte em 1961.
Conforme relato do professor Mário Simon no Jornal A Tribuna Regional de 17/06/1997, a própria igreja que ajudou a adornar negou-lhe a encomendação de seu corpo, pois os padres não reconheciam seu matrimônio com D. Clarina Lunkes, já que o mesmo havia se separado de sua primeira esposa quando deixara a Áustria e viera fixar residência aqui na região missioneira.
Sua história se não fosse real seria um belíssimo romance. Deixo então que fale com essa propriedade literária o escritor Manoelito de Ornellas, amigo de Adamovich e que lhe prestou uma homenagem no Jornal Correio do Povo em 23/05/1961, coluna essa que se encontra descrita na íntegra no post abaixo.

*SIMON, Mário. Valentin Von Adamovich: o gênio esquecido. Prefeitura de Santo Ângelo, 2001.

Valentin Von Adamovich

O artista em 1940.


Por Manoelito de Ornellas - Jornal O Correio do Povo em 23 de maio de 1961.



"A imprensa falada ou escrita da Metrópole não chegou, na síntese de uma frase sequer, a noticia da morte, em Santo Ângelo, do escultor tirolês Valentin Von Adamovich. E se a imprensa noticiasse a morte do artista omitiria, por desconhecimento, alguns pormenores da vida do homem que procurou no anonimato da humildade e da pobreza, a paz de espírito que os outros homens lhe roubaram.
Adamovich conheceu, na juventude vivida na Europa, todos os favores da fortuna. Seu pai governara o Tirol e sua família de cunho fidalgo, distinguia-se na escala social de seu país.
Aluno dos melhores de sua cidade, Adamovich conquistou um dos primeiros lugares na Escola de Belas Artes de Innesbruck, a cidade mais notável da região alpestre que se incrusta entre a Itália e a Áustria.
Foi no leito de um hospital de Porto Alegre, quando esperava pela sentença fatal de um diagnóstico que devia ignorar, que ele lembrou, não sua fortuna passada nem suas conquistas de vocação, mas a terra onde vivera. Havia no fulgor de seus olhos vivos e bons, uma saudade timidamente confessada. Saudade dos vales emoldurados por gigantescas montanhas, onde os camponeses do Tirol Austríaco apascentam seus rebanhos. E contou-nos da habilidade surpreendente daqueles homens altos e robustos que escalam as montanhas pelas ravinas e aos quais ninguém ousaria vencer, no alvo de um tiro de caça. A dança, a música e o canto, completam-lhes a vida.
Adamovich dividia sua curiosidade, na infância e na juventude, entre o rumor festivo das famosas escolas de Innesbruck e o movimento turístico das épocas de estio, quando as vias férreas que atravessavam o maciço alpestre, de Munique a Verona, pelo Brenner, ou Zurique a Linz, pelo Arlberg, carregavam os viajantes do mundo para os rumos do sul.
Havia nas suas evocações, um fundo de incofessada melancolia. Era um menino quase, quando fez a Segunda Guerra Mundial (creio que o autor quis dizer Primeira Guerra Mundial). Estafeta, numa região alpestre, vencera taludes e alcantis cobertos de neves, para chegar a tempo de salvar, com sua mensagem, um contingente de exército. Colocaram-lhe ao peito a mais alta condecoração de guerra de seu país, pela bravura do gesto. Escrevera uma página de De Amicis, digna da antologia de “El Cuore”.
Deixou seu país, a família ilustre, sua bela cidade, toda voltada para arte, seu povo alegre, amigo da música e das canções pela miragem do Brasil. É certo que ninguém lhe contara, na forma de Scherazade, histórias miraculosas do nosso país. O Brasil, e o Brasil do sul, surgiram-lhe à imaginação no retrato bruto e selvagem das memórias de seu patrício, o Padre Antônio Sepp que, como ele, nascera no seio daqueles vales guardados pelos Alpes e estudara na mesma cidade que foi sua, recolhendo na alma jovem, as melodias de seu povo, com o qual aprendera a cantar, para ilustrar depois o mais belo coral de Viena. Foi a lembrança do Padre Sepp que trouxe Adamovich à Região Missioneira, no Vale do Uruguai.
Na segunda grande guerra mundial, Adamovich já era pai de jovens brasileiros nascidos nas Missões. Não queria outra pátria. Fizera sua a pátria de seus filhos. Mas uma dessas violências, nascidas do primarismo da espécie humana, na hora trágica das lutas, esqueceu a condição do artista, pai de pequenos brasileiros, para exercer sobre o artista indefeso a vingança de um ultraje pelo qual não respondia e que ele mesmo condenava: o afundamento dos barcos brasileiros nas águas do Atlântico Sul... E queiram-lhe os livros de arte trazidos da Universidade de Innesbruck... Foi então que fixou sua residência em Santo Ângelo.
Adamovich entristeceu para sempre e a mágoa da afronta que sofreu, foi uma sombra eterna sobre sua vida apagada e humilde.
Voltou-se à arte, à escultura em pedra, que amava. Um dia, realizou o monumento ao Pe. Antonio Sepp, às portas da antiga redução de São João Batista. Talhou no arenito vermelho, a figura do Taumaturgo das Missões, com um pouco de sua tristeza na tristeza do Padre.
Realizava agora monumento eqüestre do Índio Sepé Tiaraju quando enfermou. Deixou pronto o pedestal e duas figuras de índios. Não voltou mais ao martelocom que trabalhava o granito.
Veio a Porto Alegre onde encontrou amparo generoso de homens bons. Voltou a Santo Ângelo para morrer. A ciência já não podia vencer o mal que lhe tomava o organismo, devorando-o. Tombou. Caiu, sem terminar a obra mais sonhada de sua vida. E caiu humilde e pobremente, da mesma forma porque tombou o seu irmão dos Alpes, aquele benemérito Padre Antônio Sepp, que tudo renunciara do grande mundo, pelo sonho da catequese na América. O Santo e o Artista reencontraram sua pátria nas alturas, de onde haviam trazido a melancolia dos exilados..."

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Caixa d'água do Bairro Pippi

A Caixa d'água em manutenção em 1960.


O local hoje.

Nos altos do Bairro Pippi existe uma caixa d’água em um formato bastante curioso. Ela não tem nada de extraordinário arquitetonicamente falando. Parece uma jarra com o gargalo virado para baixo. Mas sem dúvida esse empreendimento foi de grande importância para o desenvolvimento daquela zona da cidade.
Há alguns meses juntamente com a Professora Claudete Boff, presidente do Conselho do Patrimônio Histórico, Artístico e Arqueológico de Santo Ângelo, visitamos o local e conversamos com alguns moradores das adjacências. A caixa d’água foi construída em 1954 para abastecer a então Vila Pippi e Vila Hortência. Conforme relatos do Sr. Zordino Hasse, funcionário aposentado da prefeitura, que foi zelador e morou nos fundos do reservatório, a água que abastecia a caixa provinha de um poço artesiano aberto no local e a água era movida pelos motores que localizavam-se na casa de máquinas em frente a caixa d’água.
Em uma edição do Jornal dos Bairros do ano de 2000, foi relatado que a caixa d’água precisou ser construída, pois “o problema da água na época era compreensível, e quando faltava batia o desespero na comunidade”. Na década de 50 é que começava a expansão do Bairro Pippi e seu crescimento econômico e populacional. O Bairro Pippi e os bairros adjacentes comportam hoje quase metade da população de Santo Ângelo.
Outra curiosidade que nos foi contada pelo Sr. Zordino era de que existia uma grande lavanderia coletiva nas proximidades da caixa d’água, com grande tanque onde as mulheres lavavam roupas. Conforme seu depoimento o alarido das conversas, das discussões e das brigas das mulheres era grande o dia todo. Imaginar como seria essa cena a 50 anos atrás, foi difícil, principalmente para mim que fui criado no bairro Pippi mas só conheci esses espaços desativados. Recorri então a minha memória literária e me veio quase que instantaneamente a cabeça imagens que me remeteram a obra de Aloísio de Azevedo e o dia-a-dia das personagens de “O Cortiço”.
Por fim, vale ressaltar que nem só do centro vive a memória de Santo Ângelo...mas também das inúmeras histórias escondidas na periferia.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

85 anos da Coluna Prestes

Estação Férrea de Santo Ângelo. Atual Memorial Coluna Prestes.


Casa na Marechal Floriano onde residiu Luiz Carlos Prestes. Foi demolida na década de 80.

1º Batalhão Ferroviário de Santo Ângelo na déc. de 20. Ficava na Rua 25 de Julho, esquina com a Marquês do Herval.

No último dia 29 de outubro, completou 85 anos do início do Movimento Revolucionário que ficou conhecido como Coluna Prestes. A Marcha revolucionária que entrou para os livros de história e marcou o período da república Velha no Brasil partiu de Santo Ângelo, onde se encontrava um dos articuladores da Marcha e aquele que daria nome ao movimento: Luiz Carlos Prestes – O Cavaleiro da Esperança.
Ao retomar o período em que a Coluna Prestes aconteceu cabe relembrar que o país estava completando 35 anos da proclamação da república. Uma republica corrompida pelos interesses das oligarquias. O chamado voto a cabresto era a prática recorrente do coronelismo que dominava os interiores do Brasil (o que não era diferente em nossa região – conseqüência da verticalização política do período), acordos entre Minas Gerais e São Paulo faziam intercalar presidentes no poder o que identificou o período como a República do café (São Paulo) com leite (Minas). Além de todas essas práticas antidemocráticas, os brasileiros dos rincões do país sofriam com o descaso, o abandono – doenças, miséria, analfabetismo. Movimentos de revolta estouraram em todos os cantos do país.
No Contestado e em Canudos surgiram movimentos messiânicos, movimentos urbanos como a Revolta da Vacina no Rio de Janeiro e movimentos tenentistas como Os 18 do Forte e posteriormente a Coluna Prestes.
Prestes, gaúcho de Porto Alegre nasceu em 3 de janeiro de 1898, filho de Antônio Pereira Prestes (oficial do exército) e Leocádia Felizardo Prestes (professora primária) formou-se em engenharia na Escola Militar do Realengo no Rio de Janeiro aos 22 anos. Após o Levante de Copacabana, do qual foi um dos mentores, Prestes é enviado para Santo Ângelo, no interior do Rio Grande do Sul a fim de supervisionar as construções dos quartéis na região. A nomeação de Luiz Carlos Prestes para esse serviço no interior do Rio Grande do Sul fora a forma encontrada pelo exército de retirá-lo da cena dos grandes centros políticos a fim de impedir que ele incitasse novos levantes contra o governo, o que não esmoreceu seu espírito revolucionário. No ano de 1923, Prestes pede demissão da supervisão das obras devido à falta de material necessário ao trabalho bem como dos desvios de verbas públicas quando da construção da ponte de ferro sobre o Rio Comandai, no interior de Santo Ângelo.
Em julho de 1924, estoura em São Paulo uma nova rebelião tenentista, no Rio Grande do Sul em 29 de Outubro do mesmo ano, o 1º Batalhão Ferroviário de Santo Ângelo é o primeiro a se levantar, sob o comando do capitão Luiz Carlos Prestes, se concentrando posteriormente em São Luis Gonzaga, a Coluna se forma e começa sua marcha buscando o encontro com as tropas rebeladas em São Paulo.
Entre sucessivos combates com as forças governistas as tropas do Rio Grande do Sul se encontram em abril de 1925 com as tropas paulistanas no Paraná, ingressam pelo atual Mato Grosso do Sul através do Paraguai e dão início a grande Marcha revolucionária, se utilizando de táticas de guerrilha, o objetivo do levante era conseguir apoio do povo do interior para a derrubada do governo de Artur Bernardes. A Coluna percorreu mais de 25 mil quilômetros até fevereiro de 1927, chegando ao final com cerca de 1500 revolucionários, entre homens e mulheres que percorreram 15 estados brasileiros. Ao longo desse período, os objetivos da marcha foram enfraquecendo ao se defrontar com um país imenso territorialmente, mas gravemente doente social e economicamente. Apenas derrubar o governo não seria suficiente para melhorar o Brasil. Foi nutrido desse sentimento de indignação e de profunda humanidade desenvolvido ao longo da Marcha que fez de Prestes uma das grandes personalidades políticas do século XX.

O Manifesto de Santo Ângelo*

Luis Carlos Prestes (terceiro da esquerda para direita - sentado) e os oficiais da Coluna.

“ É chegada a hora solemne de contribuirmos com nosso valoroso auxilio para a grande causa nacional.
Há 4 mezes a fio que os heroes de São Paulo vêm se batendo heroicamente para derrubar o governo de odios e de perseguições que só têm servido para dividir a família brasileira, lançando irmãos contra irmãos como inimigos encarniçados.
Todo o Brasil, de Norte a Sul, ardentemente deseja, no intimo de sua consciência, a victoria dos revolucionarios, porque elles luctam por amor do Brasil, porque elles querem que o voto do povo seja secreto, que a vontade soberana do povo seja uma verdade respeitada nas urnas, porque elles querem que sejam confiscadas as grandes fortunas feitas por membros do governo a custa dos dinheiros do Brasil, porque elles querem que os governos tratem menos da politicagem e cuidem mais do auxilio ao Povo laborioso que numa mescla sublime de brasileiros e estrangeiros, irmanados por um mesmo ideal, vive trabalhando honestamente pela grandeza do Brasil.
Todos desejam a victoria completa dos revolucionarios, porque elles querem o Brasil forte e unido, porque elles querem pôr em liberdade heroes officiaes da revolta de 5 de Julho de 1922, presos porque num acto de patriotismo, quizeram derrubar o governo Epitacio, o que esvaziou criminosamente o nosso thesouro, e porque quizeram evitar a subida do Governo Bernandes, que tem reinado a custa do generoso sangue brasileiro.
Todos sabem hoje, apezar da censura da Imprensa e do Telegrapho, apesar das mentiras officiaes espalhadas por toda a parte, que os revolucionarias têm recebido verdadeira consagração por onde têm passado e que até hoje não foram batidos.
Todos sabem que elles se retiraram para dar um descanço à tropa, que elles dispõem de toda a artilharia de São Paulo, ainda intacta, que dispõem de 20 milhões de tiros e de 5 mil fuzis novos, e que ainda não entraram em acção, que elles estão senhores da parte sul de Matto Grosso, a mais rica, de grande parte do Paraná, perfeitamente apparelhadas e que agora, voltam novamente à lucta, mais fortes do que nunca.
Todos sabem hoje que o Governo organizou successivamente 8 colunnas para bate-los e que foi forçado a desorganiza-las novamente porque as tropas do Exercito se negavam a combate-los e os de mais, que os combateram, foram dezimados como aconteceu com o Batalhão da Marinha e com a nossa Brigada Militar, agora, depois da entrada em seção da columna Rondon é o próprio governo quem confessa não ser mais possivel dominar a revolução no Brasil, porque a victoria della é já uma aspiração Nacional.
E o Povo Gaucho, altaneiro e altivo, de grandes tradições a zelar, sempre o pioneiro de grandes causas nacionais, levanta-se hoje como um só homem e brada: Já é tempo de fazer o governo respeitar a vontade do povo, já é tempo de restabelecer a harmonia na família Brasileira, já é tempo de luctarmos não peito a peito, mas sim hombro a hombro, para restabelecermos a situação financeira do Brasil, para recobrar o dinheiro que os nossos maus governos nos roubaram e podermos, assim, evitar que, em 1927, o Governo lnglez venha tomar conta das nossas alfandegas e das nossas ricas colônias para cobrar a divida do Brasil.
Hoje, 29 de Outubro, por ordem do General lzidoro Dias Lopes, levantam-se todas as tropas do Exercito das guarnições de Santo Angelo, São Luiz, São Borja, ltaquy, Uruguayana, Sant’Anna, Alegrete, Don Pedrito, Jaguarão e Bagé, hoje irmanados pela mesma causa e pelos mesmos ideaes levantam-se as forças revolucionárias gauchas da Palmeira, de Nova Wutemberg, ljuhy, São Nicolau, São Luiz, São Borja, Santiago e de toda a fronteira até Pelotas e, hoje entram no nosso Estado os chefes revolucionarias Honorio Lemos e Zeca Netto, tudo de accordo com o grande plano já organizado.
E, desta mescla, desta comunhão do Exercito e do Povo, com nacionaes e estrageiros, resultará a rápida terminação da luta armada no Brasil, para honra nossa e glória dos nosso ideaes e de nossos foros de povo civilizado e altivo.
De acordo com o plano geral, as tropas de Santo Angelo talvez pouco demorem aqui, mas durante este tempo a ordem, o respeito a propriedade e a familia serão mantidos rigorosamente e para isso o governo revolucionaria provisório conta com o auxilio da própria população.
Não queremos perturbar a vida da população, porque amamos e queremos a ordem com base do progresso. Podem pois estar todos calmos que nada acontecerá de anormal.
São convocados todos os reservistas do Exercito a se apresentarem ao quartel do 1º Batalhão Ferroviario, e fica aberto o voluntariado.
Todos os possuidores de automoveis, carroças o cavalos deverão immediatamente po-los a disposição do 1º Batalhão Ferroviario e serão em todos os seus direitos respeitados.
Todas as requisições serão documentadas e assignadas sob a responsabilidade do Ministro da Guerra.
Pelo Governo Revolucionario do Brasil
Cap. Luiz Carlos Prestes 29/10/1924”.
*Na transcrição foi respeitada a grafia da época.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Semana Cultural de Santo Ângelo

Espetáculo "A Máscara de Taré" - Espetáculo de Teatro sobre a história das Missões será apresentado dia 29/10 no Teatro Municipal.

Na próxima quarta-feira dia 28 de outubro terá inicio a 17ª edição da Semana Cultural de Santo Ângelo, que se estenderá até o dia 06 de novembro. A Semana Cultural foi instituída pela lei municipal nº 1699 de autoria do então vereador Dalmir Ledur e sancionada pelo prefeito Adroaldo Loureiro em 12 de agosto de 1993. A Semana Cultural consiste em uma série de apresentações artísticas, palestras, oficinas, mostras de arte e exposições na semana do dia 12 de agosto, data da fundação da Redução jesuítica de Santo Ângelo Custódio. Excepcionalmente nesse ano a Semana Cultural foi transferida para final de outubro e inicio de novembro, devido ao surto de gripe A no mês de agosto.
Muitas atividades marcantes aconteceram durante essas 16 semanas culturais que se passaram. Entre os patronos das Semanas Culturais estão nomes de pessoas que deixaram significativas contribuições para a Cultura de Santo Ângelo, entre eles podemos destacar nomes como Bazilisso Leite, Pedro Osório do Nasciemento, Elemar de La Rue, Tadeu Martins, Leverdógil de Freitas (in memorian), Flavio Panzenhagen, entre outros. Nesse ano, o patrono, que empresta seu nome à Semana Cultural é o ator e diretor de teatro Jerson Fontana. A programação da Semana Cultural desse ano tem entre outras coisas apresentação de ópera, peças de teatro, Festival Santo Ângelo em Dança, lançamento de livros e mostra de clássicos do cinema gaúcho. A programação completa pode ser acessada no link da Secretaria de Cultura ao lado.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Dr. Willy Gatz e seu Hospital

Hospital Gatz, Esquina da Marquês do Herval com a Andradas. Hoje um terreno vazio.


Segue abaixo a transcrição do texto do cerimonial que contém o currículo resumido do Dr. Willy Gatz, quando este foi homenageado em 1982, na administração do Prefeito Carlos Schröder, com a “Comenda da Cruz Missioneira” pelos relevantes serviços prestados a comunidade.

“Natural da Alemanha e naturalizado brasileiro, o Dr. Willy Gatz nasceu em 27 de março de 1888, formou-se em medicina na Universidade de Bonn na Alemanha em 1917 defendendo tese e recebendo o título vitalício de Doutor em Medicina interna, cirurgia e obstetrícia, aprovado pelo imperador Guilherme II e assinado pelo seu chanceler. Serviu como oficial médico no exército alemão durante a 1ª Guerra Mundial.
Prestou serviços como médico secundário e substituto do médico chefe nos dois grandes hospitais das cidades de Aix la Chapele e Reincheidt, na região de Ruhr.
O Dr. Gatz chegou ao Brasil em 1923, onde visitou as Universidades do Rio de janeiro, São Paulo e Porto Alegre. Porém o espírito pioneiro do Dr. Willy Gatz e de sua esposa, não se contentava em se estabelecer num grande centro, e sim no interior, onde a assitência médica era precaríssima, e por que não dizer, que não havia na época.
Por tudo isso, resolveu fundar sua clínica em Santo Ângelo, última etapa da estrada de ferro.
Começou sua jornada profissional sem recursos de comunicação e transporte, pois havia apenas um carro de praça em Santo Ângelo. Para que pudesse prestar seus serviços aos pacientes das colônias, o único meio de que dispunha era o transporte a cavalo.
No dia 1º de setembro de 1927, inaugurou seu Hospital Particular com seus próprios recursos, sendo o primeiro hospital em Santo Ângelo e na região missioneira, equipado com toda aparelhagem moderna da época, vinda do estrangeiro.
Nesse período ocorreu na cidade uma grande epidemia de desidratação e tifo, sendo que o Dr. Willy gatz dedicou-se inteiramente para combater esses males que estavam causando uma grande mortalidade, principalmente infantil. Com sua dedicação, conseguiu diminuir em 75% o índice de mortalidade, conforme estatística do Registro Civil.
No setor de cirurgia, enfrentou até 1940, grandes dificuldades devido a falta de antibióticos e anestésicos, mas, mesmo assim, as cirurgias eram efetuadas com êxito, pela sua dedicação e capacidade profissional.
Na área de obstetrícia, houve na época, uma sensívelredução, segundo estatística, de mortalidade de parturientes e seus bebês. A cesariana não era divulgada na região, o Dr. Willy Gatz introduziu a cesárea como meio de salvar vidas, em casos extremamente difíceis. Inclusive sua primeira cesariana na região foi o nascimento do nosso ilustre Deputdo Federal José Alcebíades de Oliveira.
O Dr. Willy Gatz, incansável na sua profissão e na sede de adquirir novos conhecimentos e técnicas, realizou várias viagens de estudos para a Europa e Estados Unidos, sempre em prol da saúde do povo missioneiro.
Pela sua dedicação e pioneirismo na região das Missões, numa de suas viagens pela Itália junto de sua esposa, Dona Gerda, foi concedida audiência pela S. Santidade o Papa Pio XI, no castelo de Gandolfo.
Em 1963, sofreu com a irreparável perda de sua esposa, após uma longa e dolorosa enfermidade, para qual, ele que tantas vidas salvou, nada pode fazer, chocando-o profundamente. Retirou-se de suas atividades profissionais por alguns anos, realizando viagens para quatro continentes, dando assim, vasão às suas tendências filosóficas.
Hoje são quase sessenta anos de solo missioneiro. Anos esses dedicados a minorar os sofrimentos de nossos semelhantes e ao bem servir do povo desta região, particularmente da comunidade santo-angelense.
Como vemos, ele ama o Brasil, considerando-o sua verdadeira pátria.
Por isso, recebe hoje a “Comenda da Cruz Missioneira”.


Existe hoje uma da sala no Museu Municipal Dr. José Olavo Machado, criada em homenagem ao Dr. Gatz, onde pode ser admirado alguns dos pertences, ferramentas e utensílios de seu oficio. Porém, a maior obra do Dr. Gatz a Santo Ângelo foi seu Hospital: um marco para a história da medicina na região e no estado. Grande parte do prédio do Hospital Gatz foi demolida há poucos anos, ainda resiste ao tempo parte da obra na Andradas, esquina com a Antunes Ribas. Ao injustificável não há argumento, pior então sabermos que o espaço que abrigou essa importante instituição hoje dá lugar a um terreno vazio no centro da cidade. É triste saber que nossa história, que como o pronome bem diz é de TODOS, fica relegada aos interesses financeiros de POUCOS.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

O Clube Gaúcho

O Clube na década de 20


O Clube Gaúcho, fundado em 02 de fevereiro de 1902, perdura até os dias atuais como um dos exemplares da vida social de Santo Ângelo. O terreno em que se encontra construído era a casa do Sr. Bento Rolim de Moura, quando da ocupação do espaço pelos primeiros moradores após o período reducional no século XIX. Naquele local foi sediada a primeira Câmara de Vereadores de Santo Ângelo.
Na foto acima, podemos vislumbrar detalhes do prédio do “Club Gaúcho”, construído em 1920, conforme a data que se encontra na fachada. Do lado esquerdo é possível observar o sobrado do Sr. Cortes que resiste ao tempo até os dias atuais (Saul Lanches).
Com sua imponente arquitetura, os clubes sociais representavam na época espaços de encontro da sociedade urbana e abastada, ponto de reuniões dos políticos, industriários, agropecuaristas, damas da sociedade, local para serões, grandes bailes, shows musicais.
Conforme José Olavo Machado o clube “nasceu com a denominação pomposa de Sociedade Literária, mudada em seguida para Clube Gaúcho, por sugestão do dr. Augusto Leonardo Salgado Guarita, juiz da comarca de então e que, depois, por anos consecutivos, foi seu dedicado presidente”.
O prédio da foto foi demolido na década de 60 para dar lugar ao moderno prédio do Palácio Metálico.

Fonte: MACHADO, José Olavo. História de Santo Ângelo: das Missões aos nossos dias.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Do Acervo do Arquivo Histórico


Fotos do livro, editado em 1900.

Trabalhar no Arquivo Histórico me traz muitas vezes o sentimento de voltar à infância. Daqueles dias chuvosos em que passava na casa de meus avós e remexia naquelas malas antigas e caixas de sapato repletas de papéis amarelados e fotografias. Ou então entrava no porão escuro para bisbilhotar os objetos que teimavam em perdurar ao longo do tempo naquele lugar que cheirava a umidade, poeira e história. Poder ler ou tocar em algo escrito ou produzido por alguém que passou pelo planeta, muitas vezes de tempos que ninguém mais existe para contar como era, é algo intrigante. Sentimentos se misturam: curiosidade, pertencimento e finitude.
Defronto-me as vezes com alguns documentos que me fazem esquecer do tempo e ficar envolto na leitura, buscando imaginar o que se passava naquele momento com a pessoa que escrevia, buscando recriar o cenário a sua volta e de que maneira o momento histórico e a conjuntura social em que o escritor estava submerso influenciavam na sua escrita. Assim, procurarei destacar aqui alguns documentos que me fizeram mergulhar no aspiral do tempo e viajar alguns instantes.
Dia desses, catalogando alguns livros da coleção do acervo me deparei com a obra “Inocência” do Visconde de Taunay, a quarta edição impressa no país, datada de 1900. Quantos exemplares foram produzidos na tiragem não há, mas um deles ainda resiste a força do tempo, nesses quase 110 anos de existência, e está guardado em nosso acervo. Os editores responsáveis (Laemmert e C. editores), escreveram o prefácio à quarta edição em 10 de agosto de 1898, porém o ano de impressão é 1900, o que me levou a refletir sobre a tamanha dificuldade e ao maquinário extremamente lento utilizado na tipografia da época se comparada à tecnologia atual. O livro pertenceu ao Sr. José Cezimbra, prefeito de Santo Ângelo entre os anos de 1938 e 1939, conforme assinatura do mesmo na borda e na primeira página.
Nas páginas iniciais o autor faz uma dedicatória ao amigo de infância José Antônio de Azevedo Castro onde diz: “Não é em valioso monumento que vou inscrever a tua lembrança; simplesmente na primeira pagina de uma narrativa campestre e despretenciosa, de um livro singelo e sem futuro”.
Singelo pode até ser, mas mal sabia Taunay que escrito nos últimos anos do período imperial brasileiro, seu livro atravessaria os tempos como uma das grandes obras da literatura brasileira.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Aspectos da Vila de Santo Ângelo na década de 20

Rua Marquês do Herval, em frente a Praça Pinheiro Machado, no inicio da década de 1920. Imóveis: Casa de Ernesto Kruel, Teatro Municipal, Casa do Major Eurico de moraes, casa de Afonso Correia Taborda. Vê-se também um lampião público e um poste do telégrafo.


No Arquivo Histórico Municipal Augusto César Pereira dos Santos, entre os importantes documentos que registram a história da nossa cidade, encontra-se um exemplar da obra “O Rio Grande do Sul (completo estudo sobre o estado)” organizada por Alfredo R. da Costa em 1922. A obra traz um levantamento histórico, demográfico, fotográfico, social, econômico e cultural dos municípios gaúchos daquele período. Com riqueza de detalhes, impresso em papel colchê e fotografias de qualidade , algo admirável para o período, o livro é uma importante fonte de pesquisa. No volume II nas páginas 253 à 260, estão os registros sobre “O Município de Santo Ângelo”. Transcrevo abaixo, respeitando a grafia da época, um trecho do texto que descreve o aspecto da Sede Municipal no início dos anos 20:

“ Ao centro da Villa fica a praça denominada Pinheiro Machado de fórma quadrada e medindo 130m2. Ahí se acham edificados ao melhores predios, taes como a Igreja Matriz, construcção jesuítica; Intendencia Municipal edificada sobre os auspicios de Venacio Ayres; theatro municipal; agencias dos bancos do Comercio e Pelotense; o Club “Gaúcho”, fundado pelo Dr. Augusto Leonardo Salgado Guarita, em 1900; collectoria federal; casas commerciaes, etc. No sentido norte-sul, correm as ruas: 15 de Novembro, Marquez do Herval, Antunes Ribas; no sentido transversal: Bento Gonçalves, Antônio Manoel e 7 de Setembro. Existem, ainda, outras ruas menos povoadas e as praças Coronel Braulio e Tiradentes. As ruas são todas largas e rectas; as principaes são macadamisadas e têm calçadas (passeios). A parte sul da vila acha-se situada em um outro alto, havendo entre ambas uma baixada que as divide; essa parte é um novo bairro, onde está se formando uma outra villa, e é ahí que se acha a praça Tiradentes. Promette esse bairro ser muito commercial, devido à estrada de ferro, pois que alli se acha construída a estação. A illuminação electrica ainda que deficiente, presta a Santo Angeloum importante serviço e dá agradavel aspecto á Villa; a empreza é particular e pertence ao sr. Ernesto Drögmüler, de que o motor é destinado a uma carpintaria a vapor, de sua propriedade. Os edifícios, em grande maioria são de estylo antigo, poucos ha de feitio moderno. A’ rua Márquez do Herval ha um Cinematographo pertencente ao sr. Alfredo Beck. Possúe 14 ruas, 5 avenidas e 5 praças. O numero de predios attinge a 274, e a população urbana é de 1.300 habitantes.”

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

O Prédio da Câmara de Vereadores - antigo Fórum de Santo Ângelo

Construção do Prédio do Fórum, atual Câmara de Vereadores em 1940. Ao fundo pode-se ver a Prefeitura à direita e a Catedral à esquerda, ainda sem as torres.


O Prédio na década de 1940. Imagem da Antunes Riabas sentido Norte-Sul.


Conforme ato nº 37 de 27 de agosto de 1928, o intendente Carlos Kruel desapropria o prédio da Loja Maçônica “Venâncio Aires” junto a Antunes Ribas, para o andamento da construção do atual prédio da prefeitura. Pelas proporções descritas, o prédio da loja ocupava o espaço que hoje dá lugar à Prefeitura e também a Câmara de Vereadores na rua Antunes Ribas.
A comarca de Santo Ângelo data de 1875, funcionou primeiramente junto ao antigo prédio da intendência e após, no atual prédio da prefeitura municipal até inicio da década de 40. Posteriormente foi construído o prédio que hoje é sede do Poder Legislativo Municipal em 1940, e que foi sede da comarca até 1990. Em 1990, com inauguração de um novo prédio para sede do fórum, o espaço passou a sediar órgãos do Poder Executivo Municipal, sendo que no ano 2000, passou a sediar a Câmara de Vereadores do município.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Patrimônio e Memória: Por que preservar?

Mansão da Família "Manoel Agostinho Schorn". Localizava-se na esquina da Rua Antunes Ribas com a Três de Outubro, onde hoje existe o prédio do SESI. Do prédio original restou apenas a fotografia.


Imagine-se acordando de manhã, espreguiçando-se e abrindo os olhos lentamente, deixando a claridade do sol inundar lentamente suas retinas. De repente você olha em volta e se vê num lugar estranho. A cama, a mobília, as janelas, nada lhe é familiar. Então você ouve conversas além daquelas paredes estranhas. Vagarosamente, um pouco perturbado você se levanta da cama, e vai à direção das vozes. Abre a porta e se depara com algumas pessoas. Elas lhe dão bom dia, com a maior naturalidade, até sorriem para você. Uma delas com uma voz amável olha para você e te chamando de um nome que você nunca ouviu, diz para se apressar senão você vai se atrasar. Se antes você se sentia um pouco perturbado, agora uma agonia que beira o desespero vai tomando conta de você. E então num ímpeto você fecha a porta, não vê as coisas pela frente, se sente confuso. Aí você fecha os olhos e faz força pra tentar lembrar o que aconteceu. Quem é você? De onde você veio? O que teria acontecido na noite anterior? E nada. Nada, essa é única palavra que faz sentido. Seria um sonho? Nem isso você sabe. Então, só lhe resta voltar para aquela cama de antes e ver se consegue acordar desse pesadelo.

Com esse exemplo acima, buscamos fazer com que todos se permitam refletir sobre a importância da memória para a constituição da nossa subjetividade e nesse texto equiparar, dentro de um panorama mais amplo, com a construção da memória coletiva. Em nosso cotidiano geralmente não percebemos o papel da memória na formação da nossa vida em sociedade e, como muitas outras coisas, só passamos a valorizá-la quando nos imaginamos sem.

Primeiramente nos cabe remontar a origem da palavra memória, que na mitologia vem da deusa grega Mnemosine, a mãe das musas que protege as artes e a História, era ela que proporcionava a transmissão dos conhecimentos do passado entre os mortais. Segundo a historiadora Circe Maria Fernandes Bittencourt, “a questão da memória impõe-se por ser a base da identidade, é pela memória que se chega à história local”.

Dessa maneira, cabe-nos ressaltar que a História é a ciência que tem no passado o seu aporte investigativo. Porém a História só se faz a partir da memória seja ela escrita, oral ou ainda, a partir da materialidade e dos “lugares de memória” (museus, monumentos, prédios etc.). Esses testemunhos do passado são a fonte, o material de trabalho do historiador. Mesmo as questões da atualidade só podem ser lidas numa teia mais ampla de análise crítica, e para isso as fontes históricas são fundamentais.

Falar em memória coletiva é falar de identidade social, afinal somos seres históricos. É o acumulo de referências de outras épocas que formam a estrutura da sociedade em que estamos inseridos. Somos constituídos no presente a partir da nossa ancestralidade. O patrimônio cultural de uma comunidade, diz respeito a tudo aquilo que a identifica com aquele espaço. A idéia de patrimônio cultural agrega desde prédios, ruas, praças e monumentos que dizem das modificações e sobreposições da formação da dinâmica urbana de uma comunidade, até aspectos antropológicos que dizem da formação de um grupo humano como a língua, os ritos, as crenças e os costumes.

Nos últimos tempos, com avanço tecnológico, a crise de paradigmas das ciências, o encurtamento das distâncias entre os paises e conseqüentemente entre as culturas, nós seres humanos, temos buscado dentro desse processo de intensas transições, referências que nos ajudem a reconstruir o caminho que nos trouxe até aqui. Na atualidade tudo muda o tempo todo. O que é hoje amanhã não é mais. É desse processo de consciência da transitoriedade da sociedade que tomamos consciência da nossa efemeridade enquanto sujeitos históricos e então adquirimos a noção de continuidade e perpetuação. É daí que provém a necessidade da preservação do patrimônio histórico e cultural e de políticas que contemplem essa necessidade.

Porém, vale destacar que uma política de preservação patrimonial acontece de forma democrática, com a participação de diversos segmentos de uma comunidade. Afinal essa política interfere diretamente sobre aquilo que deve ser preservado e consequentemente instituído como referência para a construção da história local. É preciso que todos se apropriem dessa discussão para que ela não represente apenas as ânsias de poucos e não contemple a diversidade. O patrimônio histórico e cultural é aquilo que nos dá unidade, enquanto homens e mulheres de uma determinada comunidade, mas não podemos esquecer que essa unidade é fruto das diferenças, sejam elas étnicas, ideológicas, de classe ou de gênero.

No momento em que Santo Ângelo avança na construção de uma política de preservação do seu patrimônio cultural, não podemos deixar de refletir sobre esse assunto. As manifestações artísticas, os traços arquitetônicos de nossos prédios e monumentos, os vestígios arqueológicos que remontam a trajetória dos nossos antepassados dizem da nossa identidade enquanto santo-angelenses. Conhecer o nosso passado é requisito para as ações no presente. É sabendo sobre como procederam aqueles que nos antecederam, nas mais diferentes situações, que agimos criticamente sobre o presente, espelhando-nos ou não em suas ações. Refletir sobre a memória é valorizar o passado e seus legados, é construir a história, e isso é um pressuposto básico para exercermos nossa cidadania.


Darlan De M. Marchi

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

O Cine Apollo

Foto do prédio do Cine Apollo em 1927.


No Jornal da Comunidade Regional de 26 de setembro de 1991, o senhor Pacifico Berni Fiorenza, rememorava alguns acontecimentos em torno do primeiro cinema de Santo Ângelo. O Cine Apollo localizava-se na Rua Antunes Ribas, na quadra entre a Rua 25 de Julho e a Sete de Setembro. Através de suas palavras conseguimos nos reportar àquele período e remontar pela imaginação um pouco da atmosfera cultural e social da antiga Villa de Santo Ângelo. Segue abaixo o texto transcrito em sua totalidade:

“Cine Theatro Apollo

Se não me engano, era assim, com esta grafia, que seu nome estava escrito em grandes letras negras no cimo de sua fachada.
Sua frente, com mais sala de espera, bilheteria, escada de madeira para um acanhado 2º piso, onde estava instalada a cabine de filmagem, ladeada por dois camarotes de 2ª classe, era de alvenaria. O restante, sala de projeção (platéia) e palco eram de madeira. A tela cinematográfica era removível, assentada num plano mais elevado e o palco estava atrás dela. Nas laterais da platéia, estavam os camarotes de 1ª classe, os quais impediam que as fileiras de poltronas tivessem seu começo ou fim junto às paredes da sala. Por estarem eles, em plano superior a altura de uma pessoa de estatura mediana, mesmo assim, tinha que curvar-se um pouco. Mais tarde foram removidos, mas nos primeiros tempos, tiveram grande destaque, sendo um ou dois permanentemente destinado à rainha. As poltronas eram de madeira lustrada com acentos móveis, isto é, dobráveis quando desocupados. Haviam 2 ou 3 grandes ventiladores ao correr do meio do teto e 6 a 8 pequenos giratórios nas laterais. Fui bilheteiro e porteiro no então velho e saudoso Apollo.
A rainha era muito bonita, pertencia a família Biermann. Vestia-se refinamente e era motivo de entusiasmo e admiração vê-la passar com seu séqüito ou observá-la em seu camarote, muitas vezes acompanhada de seu namorado, o Neco na intimidade de seus familiares e amigos. Dificilmente faltava uma sessão cinematográfica e em cada parte existia um pequeno intervalo, ocasião para tornar-se a ver a soberana.
Ah!... O Cine Apollo!... Marcou época com sua pompa, sua rainha, seus filmes, seus espetáculos teatrais e seus mistérios. Quantas emoções foram ali despertadas?! Quantos namoros tiveram ali seu começo?! Em sua grande maioria ingênuos, infantis, adolescentes e até adultos maliciosos e por isto, entremeados de alguns pensamentos pecaminosos. Ir ao Apollo, era preencher parte do lado emotivo da vida.
Sua inauguração teria sido antes de 1930, lembro-me que os filmes na época chamados de fitas, que superlotavam era as de Tom Mix com seu cavalo ensinado Tony e sua eterna namorada Mary. Eram em branco e preto com cenas simples, despretensiosas e mudas, tendo legenda em português para entendimento dos diálogos, que em muitos filmes apareciam depois da cena, mesmo assim, os expectadores de deliciavam.
Mais adiante ainda na época do Tom Mix, foram aparecendo, Oto Gibson, Buck Jones, Tim Mac Coy, Willyam Desmond, Tom Tyller, representando enredos semelhantes, sem no entanto, empanar-lhe a imagem de astro preferido. Posteriormente, quando já se comentava que brevemente viria o cinema falado e se era corrido para cinema sonoro pelos mais atendidos, foram surgindo novos cow boys, que deram origem aos grandes Westerns com cenas mais arrojadas e enredos aprimorados, como Jornadas Heróicas, Duelo ao Sol, Bufallo Bill e tantos outros, encarnados pelos espetaculares astros Gary Cooper, Gregory Pech, John Barrimore, Henri Fonda, Tyrone Power. Neste mesmo tempo estavam despontando as fitas dramáticas, comédias, aventuras, espionagem, policiais, operetas, ficção cientifica e de horror. Recordando algumas, cito as seguintes: - Gavião do Mar, Pirata Negro, Estudante de Praga, Últimos dias de Pompéia, Ben Hur, Dama das Camélias, Ana Karenina, O pecado de Madelon Claudete, Diabo Branco, Conde de monte Cristo, Luzes da Cidade, Espiã 13, Mentiras da vida, Daqui a cem anos, Médico e o Monstro, Irmã Branca, As 4 penas, Horizonte Perdido, Fantasma da Ópera, Os Miseráveis, O Homem que ri, Corcunda de Notre Dame, Beau Gest, O Morro dos Ventos Uivantes, Patrulha da Madrugada, Zepellin, Desonrada, Os 3 Mosqueteiros, Drácula, Frankstein, Zubie Legião dos Mortos, Scherlock Holmes. Entre outros, foram filmes que marcaram época. As pessoas deixaram o cinema arrebatados pelo enrêdo, pela interpretação dos artistas e pela finalização, quase sempre feliz para os elementos de bom caráter (mocinho, mocinha e seus amigos).
Seguidamente troupes, mágicos e músicos apresentavam-se no teatro. Ribeiro Cancela chegou a se apresentar 2 vezes num mesmo ano com sua afamada companhia. Nele também se apresentou diversas vezes, o valoroso e admirado boxista, filho da terra, sr. Domingos Fortes (DOMINGÃO), demolindo em luta de boxe tantos quantos lhes desafiaram”.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

O Tratado de Madrid e o fim dos Sete Povos

Alexandre Gusmão. Diplomata português, idealizador do Tratado de Madrid


O fator principal que ocasionou a decadência dos Sete Povos foi sua localização em uma zona de contestação entre Espanha e Portugal. O Tratado de Tordesilhas firmado em 1494, já não era respeitado a muito tempo, e a fundação da Colônia do Sacramento no atual Uruguai pelos portugueses impedia o avanço dos domínios espanhóis, sendo então cobiçada por esses, já que se localizava em um lugar estratégico que auxiliaria na implantação do monopólio comercial espanhol. Esse interesse por Sacramento deu origem ao Tratado de Madrid assinado entre Portugal e Espanha em 1750. Portugal abriria mão da Colônia de Sacramento em troca da região dos Sete Povos das Missões, que deveriam ser liberadas por seus habitantes que teriam de migrar para o lado do domínio espanhol.
Conforme as palavras de Maestri, o tratado ordenada que:

Das povoações ou aldeias que cede Sua Majestade Católica na margem oriental do rio Uruguai, sairão os missionários com todos os móveis e efeitos, levando consigo os índios para os aldear em outras terras de Espanha (…); entregar-se-ão as povoações à Coroa de Portugal, com todas as suas casas, igrejas e edifícios e a propriedade e posse do terreno (…)”.

Esse tratado desencadeou a resistência dos guarani dos Sete Povos que perderiam seu patrimônio, terras, estâncias e tudo aquilo que haviam construído. Essa resistência gerou a Guerra Guaranítica. O dois exércitos europeus se uniram contra os índios dos Sete Povos da Missões que lutaram em pequenas guerrilhas até 1756 contra os dois exércitos.
As tropas gerais missioneiras eram comandadas por Nicolau Neenguiru, corregedor de Concepción, na margem ocidental do Uruguai. Outras tropas por José Tiaraju – Sepé –, alferes real de São Miguel. Em 7 de fevereiro de 1756, Sepé foi morto m batalha, teria sido justiçado com um tiro de pistola, pelo próprio governador de Montevidéu, tendo dito antes da morte a célebre frase: “Esta terra tem dono”. Sepé Tiaraju tornou-se um mito, um mártir da causa missioneira, sendo aclamado até os dias atuais tendo sua imagem ligada aos movimentos sociais e de luta no Rio Grande do Sul.
O fim da Guerra aconteceu porém apenas em 10 de fevereiro, na Batalha de Caiboaté. Foi um banho de sangue onde os guarani missioneiros foram as vítimas frente ao poderoso armamento dos inimigos.Cerca de mil índios missioneiros foram executados. Em 16 de maio de 1756, após pequenos confrontos, as tropas ibéricas entraram em São Miguel. A República dos Sete Povos fora derrotada.
O Tratado de Madrid que de início parecia não interferir com os povoados do lado direito do rio Uruguai, foram afetados após a Guerra Guaranítica. Os jesuítas foram acusados de incitar os guarani à resitência e como punição foram expulsos dos Trinta Povos, ou seja do território dos três países. Com a expulsão dos jesuítas desses territórios, outras tentativas de reerguer as missões foram tomadas destinando para isso padres de outras ordens religiosas, mas que não lograram sucesso pois os poucos índios que restaram estavam dispersos e não aceitaram os novos missionários.
Segundo Maestri:

"(...) os missioneiros foram obrigados a adotar a língua e nomes portugueses, dissolvendo-se na população subalternizada do Rio Grande do Sul. Essa enorme contribuição ao povoamento original do Rio Grande é menosprezada pela historiografia tradicional rio-grandense.
Derrotados, milhares de missioneiros migraram para a Banda Oriental – Uruguai –, onde se empregaram nos campos, como peões, e em Montevidéu, como chacreiros, artífices, etc., guaranitizando profundamente aquela região".

Fonte: MAESTRI, Mário. Os Sete Povos Missioneiros: Das fazendas coletivas ao latifúndio pastoril rio-grandense. In: www.pfilosofia.pop.com.br


sexta-feira, 18 de setembro de 2009

O gado e a erva-mate


Um dos atrativos aos bandeirantes na região missioneira do Alto Uruguai foi a introdução de gado em 1634. O gado introduzido pelos jesuítas em pequeno número, propagou-se nos currais e estâncias. Porém, os ataques dos bandeirantes fizeram com que os jesuítas resguardassem o gado em grandes campos e esconderijos naturais, chamados Vacarias. A primeira foi a Vacaria do Mar, ao sul do Rio Jacuí, onde o gado se desenvolveu e procriou durante os anos de abandono após o fim do primeiro ciclo missioneiro.

No início do século XVIII, dá-se início a Vacaria dos Pinhais, nos Altos do Planalto do rio Uruguai, onde os padres introduziram o gado em vastos campos protegidos por grandes matas de pinheiro impenetráveis. Durante o auge das reduções, essas vacarias tonaram-se estâncias, que se estendiam por milhas e onde o gado era criado a fim de abastecer o consumo de carne dos trinta povos.

Da mesma forma, ocorria com os ervais que eram cultivados pela comunidade a fim de abastecer as rações de erva-mate (Ilex Paraguariensis) nos povoados. O costume de beber o chimarrão, bebida que possuia ligação com os feiticeiros guarani, não conseguiu ser extinto pelos padres jesuítas. Assim, os missionários destinaram uma pequena ração diária da erva por família.

Conforme Buxel (1987:84-85) extensos ervais se estendiam ao longo dos domínios dos Sete Povos, muitos se localizavam a 500 ou 800 Km de distância o que tornava o trabalho dispendioso para os guarani missioneiros que colhiam a erva para a redução e também para a exportação, pois em Buenos Aires alguns artigos era comprados em troca da erva.

O hábito de tomar o chimarrão espalhou-se pela América Latina e ainda hoje no Rio Grande do Sul é um hábito amplamente cultivado.


Fonte:
BRUXEL, Arnaldo. Os trinta povos Guaranis. Porto Alegre: EST/Nova Dimensão, 2ª ed. 1987.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

O dia-dia nas reduções


Os guarani das missões atribuíam uma enorme importância à religião católica e suas práticas, inicialmente era um fator externo, introduzido pelos jesuítas, mas com o tempo e as horas destinadas aos cultos, missas, sermões e catequese, os índios cederam às pregações e tornaram-se fiéis devotos do catolicismo. Dentre essas práticas destacavam-se o ensino religioso a todos os índios, principalmente às crianças, os cultos e missas diários, o esplendor dos trabalhos destinados a decoração das igrejas e a devoção dos índios ao receberem os sacramentos.
Quanto aos sacramentos, o matrimônio é que define o perfil da vida familiar guarani na redução. Os padres instituíram o casamento dentro de uma cultura que até então era poligâmica, que aceitava o divórcio e o infanticídio. Para pregar a moralidade sexual, os jesuítas implementaram o casamento precoce, a partir dos 15 anos para as moças e dos 17 anos para os rapazes. Matrimônios esses que se realizavam de forma coletiva com dezenas de casais na igreja da redução. Cada casal tinha em média de três a quatro filhos que eram orientados pelos padres nos colégios e nesses ficavam desde os sete anos, enquanto os pais trabalhavam nos diversos segmentos de atividades da comunidade.
Os padres precisavam alimentar os índios e sustentar a redução, havendo então a necessidade cada vez maior da expansão do trabalho e da diferenciação de serviços que viessem suprir as necessidades da comunidade. Nesse processo, o problema principal foi o costume do guarani pré-jesuítico com seu sistema tribal de doação e sua falta de interesse por tarefas repetitivas e cansativas. Por isso, era necessário estimulá-los a realizarem as tarefas diárias de formas diferentes, sendo a competição a mais utilizada, através de jogos, trabalho em equipe e campeonatos.
O sistema de propriedade na redução era coletiva. Cada indivíduo era dono apenas de seus objetos pessoais, fora isso até as ferramentas utilzadas no cultivo da terra era de ordem comunitária. Os indivíduos recebiam terras particulares para o sustento da família porém precisavam trabalhar nas terras coletivas para a manutenção da comunidade. Eram coletivos também os meios de transporte (barcos e carros de tração animal), as áreas de mato, as estâncias, os ervais e até as casas de moradia. Cada família diariamente recebia sua porção de erva-mate e carne que provinha das terras e campos coletivos. O senso de coletividade guarani impediu o desenvolvimento de uma civilização dentro do preceito capitalista europeu. Quanto ao comércio nas reduções Bruxel destaca:

"Dentro da mesma Redução, os índios particulares só podiam trocar entre si coisas dispensáveis e supérfluas, adquiridas por própria indústria ou doadas pela comunidade; não, porém, os bens necessários à vida e ao trabalho, fornecidos pela comunidade. (...) Quanto ao comércio entre duas Reduções será lícito dizer, de modo geral, que não havia comércio entre particulares, nem entre uma comunidade e particulares da outra. (...) mas o que escassava em uma redução podia abundar na outra. (...) No comércio com os espanhóis, todas as vendas e compras dos Trinta Povos eram, normalmente, feitas por meio dos Ofícios de Santa Fé e Buenos Aires, para onde desciam os barcos missioneiros após a colheita da erva-mate. O padre procurador de Ofício, missionário conhecedor de índios e Reduções, e interessado em tudo quanto lhes dizia respeio, procurava logo vender a bom preço os produtos indígenas, antes que o mercado se saturasse. Fazia igualmente as compras para cada Redução". (1987: 89-91)

Entre as regras da Companhia de Jesus estava a da fundação de um colégio primário junto a cada redução. Muito mais do que simples escola para que os índio aprendessem a ler e escrever, era preciso formar cristãos que também se tornassem lideranças frente à comunidade e auxiliassem na administração do povoado. Os padres de início ficaram responsáveis pela educação até a formação de mestres entre os indígenas. Nos povoados os dois idiomas, espanhol e guarani, foram instituídos como oficial. Os jesuítas tiveram que aprender o idioma para que fosse possível implementar seu projeto de conversão dos guarani. Muitas cartilhas, livros e catecismos foram traduzidos do espanhol para o guarani e impressos nas reduções.


Fonte: BRUXEL, Arnaldo. Os trinta povos Guaranis. Porto Alegre: EST/Nova Dimensão, 2ª ed. 1987.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

A Arte nas Missões

Imagem do Cristo Morto. Esculpida por artista guarani por meados do séc. XVIII. Encontra-se no interiro da Catedral Angelopolitana.


A arquitetura missioneira seguia o estilo barroco. Porém, possuia características próprias, principalmente no que se refere à estatuária. Segundo estudiosos, apesar de serem exímios imitadores, os guarani incluiram em suas imagens e esculturas características e feições próprias, por isso criou-se a denominação de arte barroco-missioneira para esse estilo desenvolvido nas reduções. Muitas esculturas tinham os pés, mãos e cabeças vindas da Europa as quais tinham o corpo com vestimentas celestiais esculpidas pelos artesões reduzidos. Muitos exemplares dessas obras resistiram ao tempo e ainda se conservam até os dias atuais. A arte visual não desenvolveu-se a um grau mais apurado porque não havia uma exigência por parte dos padres e dos guarani, pois essa arte assim como as demais modalidades desenvolvidas, cumpriam exclusivamente uma função catequética.
Conforme Bruxel, os jesuítas souberam utilizar esses dons artísticos dos guarani para a expansão do cristianismo e para isso desenvolveram as artes rítmicas:

"Como músicos e cantores, também os dançarinos indígenas não eram simples amadores, mas profissionais, com longos anos de exercícios diários. Começavam a dançar desde os seis ou sete anos. Em vez do trabalho na roça ou na oficina, tinham eles ensaio de canto, música e dança, por algumas horas diárias; aos domingos e festas ensaiavam também melodramas. Canto, música, dança e melodrama eram as principais diversões do povo nas muitas e grandes festividades. Os melodramas eram muitos e bem variados. Vibravam os guarani com as batalhas entre 'espanhóis e sarracenos', ou entre 'anjos e demônios'". (BRUXEL, 1987: 78)

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

O Traçado dos Povoados Missioneiros

Iconografia do traçado da Missão de São João Batista. Arquivo de Simancas, Espanha.

As reduções seguiam um plano urbanístico designado por lei variando em poucos detalhes entre uma e outra. O modelo padrão consistia em uma rua principal que dava acesso à Igreja que era o prédio mais importante de todo povoado. No centro ficava a praça onde ocorriam os desfiles militares, as encenações religiosas e as festas. Em torno da praça ficavam alinhados os blocos de casas dos índios de forma ordenada, o que permitia o crescimento planejado do povoado. Junto a Igreja ficavam os prédios utilizados pela comunidade. De um lado ficavam a casa dos padres, as oficinas e o colégio, todos com amplos espaços e grandes pátios internos. Do outro lado da igreja ficava o cemitério e o cotiguaçu, casa que abrigava os órfãos e as viúvas. Atrás da Igreja ficava a quinta dos padres onde eram cultivadas hortaliças e árvores frutíferas. Ainda, na periferia das reduções, encontravam-se fontes de água, olarias onde se fabricavam os tijolos de barro chamados adobe e as telhas que serviam para a construção das casas, além de cortumes, açúdes, capelas, estâncias e ervais. Segundo Bruxel (1987: 48-49) mesmo que ainda pouco desenvolvidas, existem pesquisas e achados arqueológicos que demonstram a existência de uma rede de esgoto e água que abastecia as reduções que chegaram a possuir cerca de 5 a 6 mil habitantes.

Nas construções, além do adobe, tijolo feito de barro sem a necessidade de queima, utilizaram amplamente a pedra itacuru que também servia de matéria-prima para a extração de ferro. Destaca-se na área da fundição de ferro a redução de São João Batista no atual município de Entre-Ijuís. A construção que possuia maiores detalhes e que exigia cuidados especiais na construção era a Igreja com adornos e talhas em arenito no seu exterior e um grande espaço interior onde encontravam-se grandes telas pintadas à óleo além de grandes altares e esculturas talhadas em madeira.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

O Segundo Ciclo Missioneiro

Ilustração do confronto entre índios e bandeirantes, do artista José de Miranda

A conquista e a colonização dos espanhóis na América estavam embasadas na evangelização e civilização, dentro do preceito europeu, prosseguindo a mesma idéia que motivou a luta contra os mouros durante a reconquista da Espanha, ou seja, estavam a serviço da Igreja e do rei da Espanha. Nesse sentido, os padres jesuítas fundaram as reduções modificando os valores morais e toda a estrutura política, social e econômica a qual essas etnias estavam acostumadas. Em vários lugares da atual América Latina, esse processo serviu para que os colonizadores espanhóis garantissem mão-de-obra obediente e barata.
A atuação dos jesuítas na América do Sul, mais precisamente na Província do Paraguai, que compreendia regiões do Brasil, Argentina, Paraguai e Bolívia, foi durante os primeiros contatos repelida pelos indígenas. E mais tarde, como já foi falado anteriormente, tiveram de adiar seus projetos devido à atuação das bandeiras paulistas.
O começo dos chamados Sete Povos das Missões, após os ataques do primeiro ciclo na região do atual Rio Grande do Sul, começa em nas duas últimas décadas do século XVII. Conforme Flores:

"A fundação da colônia do Santíssimo Sacramento no rio da Prata, em 1680, e as descidas constantes dos portugueses para o sul, em busca do gado e de comunicação com o seu entreposto comercial meridional, fez com que a política espanhola impelisse os jesuítas e catecúmenos guaranis a cruzarem novamente o rio Uruguai, fundando a redução de São Francisco de Borgia , em 1682, iniciando outra fase missioneira, que durou até 1768, sob a orientação da Companhia de Jesus". (FLORES, 1983: 22)

Com a fundação da redução de Santo Ângelo Custódio em 1707, elevaram-se a trinta o número de reduções e a sete o número de Povos no atual território brasileiro. Segundo alguns estudiosos as reduções eram Estados Teocráticos, ou seja, regidos pelo catolicismo independente do rei de Espanha, mas pelo contrário, todas as decisões políticas e econômicas dependiam da Coroa espanhola. Vários documentos comprovam a autoridade do rei sobre as missões: burocracias sobre as decisões políticas, leis, audiências e até tributos eram cobrados dos novos vassalos de Espanha. Além disso, os indígenas reduzidos prestavam um serviço fundamental, o de defesa da fronteira contra a expansão lusitana. “Portanto, a localização das Reduções não obedeceu a interesses políticos e nacionalistas, mas para a defesa das fronteiras”.( BRUXEL, 1987: 25)

Fonte:
BRUXEL, Arnaldo. Os trinta povos Guaranis. Porto Alegre: EST/Nova Dimensão, 2ª ed. 1987.
FLORES, Moacyr. Colonialismo e Missões Jesuíticas. Porto Alegre, EST/ Instituto de cultura Hispânica do Rio Grande do Sul, 1983.

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

O Primeiro Ciclo Missioneiro



Quando do achamento do novo continente pelas duas potências ibéricas (Portugal e Espanha), uma nova discussão advinda agora de uma disputa entre os dois paises viria tornar-se imprescindível na implantação do projeto missionário e alteraria a fisionomia do espaço onde hoje é o Rio Grande do Sul: as questões fronteiriças, iniciadas com a assinatura do Tratado de Tordesilhas.

"Assim, durante todo o século XVI e parte do XVII, os espaços americanos, situados entre os dois impérios ibéricos, foram inicialmente “confins”, limites vagos de territórios subpovoados, mas onde as frentes de expansão, gradualmente, tendiam a se tocar, principalmente nos vales do rio Paraná e Uruguai, ultrapassando, algumas vezes o incerto meridiano de Tordesilhas. [...] se a geografia é condição básica para a fronteira, não constitui o seu essencial. A fronteira é mais do que um fato físico, ou natural. Ela o é também político, ou mesmo psicológico, ou cultural. E se desloca ao sabor dos processos históricos da colonização. [...] no vale do Rio Uruguai, a fronteira deslocou-se por diferentes paisagens geográficas, ao sabor das oposições de interesses representados pelos bandeirantes e jesuítas, sempre antagônicos". (KERN, 1982: 157)

Assim, após o tratado da-se início ao primeiro ciclo missioneiro. No atual território do Rio Grande do Sul, em 1626, começa a formar-se as reduções jesuíticas do Tape. Os guarani apresentavam o perfil psíco-social necessário para a vida em uma redução, conforme o projeto jesuítico. Eram horticultores, viviam em em comunidade e tinham um grande interesse pelas artes, porém alguns traços da cultura guarani impedia a cristianização desse povo, como os rituais de antropofagia, de bebedeiras, a poligamia e a falta de vontade para o trabalho. Conforme Arnaldo Bruxel:

"Tinha o guarani, em suma, muitas qualidades naturais favoráveis ao cristianismo, mas tinha também não poucas disposições que lhe eram adversas. As primeiras foram prudentemente aproveitadas; as últimas, paulatinamente corrigidas, com abnegada paciência e vigilância". (1987: 11)

Essa primeira fase ficou marcada pelo confronto entre os missionários e bandeirantes. Mesmo antes da fundação de reduções nesse território, esse confronto já acontecia nas regiões de Guairá e Itatim na margem esquerda do rio Paraná. A fundação de reduções na região do Tape foram estabelecidas devido a esses freqüentes ataques de bandeirantes paulistas em busca de mão-de-obra indígena. A região dos rios Paraná e Uruguai apresentavam as características necessárias para o desenvolvimento das reduções, com grandes campos, florestas e terras férteis. Porém, não conseguiram impedir os ataques dos bandeirantes paulistas. Inúmeras reduçoes foram fundadas mas não conseguiram manter-se devido as cruéis intervenções dos escravizadores de indígenas. Os padres só conseguiram lograr sucesso após o enfrentamento com os bandeirantes, onde destaca-se a Batalha de Mbororé, onde os guarani, sob comando jesuítico derrotaram a bandeira comandada por Jerônimo Pedroso de Barros. A partir desse instante, é que os jesuítas encontraram trégua para reestruturar seus projetos reducionais.
Fonte:
BRUXEL, Arnaldo. Os trinta povos Guaranis. Porto Alegre: EST/Nova Dimensão, 2ª ed. 1987.
KERN, Arno Álvares. Missões: Uma utopia política. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1982.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

A Região Missioneira e os Primeiros Habitantes III


Ao observarmos mais a fundo a sociedade Guarani pré-colonial, precisamos levar em conta a religiosidade, suas crenças e rituais. Nesse sentido podemos destacar uma religião com fundamentos politeístas, com a crença em várias divindades protetoras, mas com a sobreposição de um deus superior, criador de todas as coisas. Acreditavam ainda na imortalidade da alma, e que esta após a morte alcançaria a felicidade em um mundo sobrenatural. O cacique poderia exercer o papel de curandeiro e guia religioso, porém essa função na maioria das aldeias era exercida pelos pajés, que:


"(...) orientavam os indivíduos nas doenças e males, buscando soluções no canto das aves, chupando os locais doloridos ou extraindo deles objetos simbolizadores do mal. Provavelmente também estavam ligados à perpetuação e reinterpretação dos mitos, nos quais se veiculavam as verdades fundamentais do seu modo de ser e de viver". (SCHMITZ, 1991: 297-298).

Verdades estas que não interessaram aos missionários jesuítas que desconsideraram e suprimiram os principais aspectos dessa religiosidade frente ao culto cristão. Sendo assim, o pajé se transformaria, mais tarde, em um inimigo do jesuíta, afinal ele retinha o controle espiritual e intelectual da tribo e lutava contra a instituição do novo culto pregado pelos europeus.

Em vários relatos dos primeiros missionários que adentraram essas matas, podemos observar alguns rituais Guarani que foram abolidos pelos jesuítas durante a aplicação do projeto reducional. Entre esses se destacam as danças e bebedeiras com intuito de invocar espíritos de antepassados, rituais de sepultamento, onde o morto era colocado dentro de um grande vasilhame cerâmico em posição fetal coberto por um vasilhame menor onde acreditavam que a alma ficaria depositada, até os rituais antropofágicos elaborados, considerados pelos padres como atos de extrema crueldade, e que na concepção guarani não eram nada mais do que momentos de festa em que exaltavam a bravura dos guerreiros.

Apesar de muitos desses costumes e crenças terem escandalizado os missionários jesuítas quando da implantação reducional, o processo de transculturação não conseguiu apagar por completo aspectos do modo de vida Guarani. A experiência missionária levou os padres a conservarem, mesmo que com adaptações, alguns pontos dessa cultura “pagã” a fim de alcançarem sucesso na conversão desses povos ao catolicismo.
Fonte:
SCHMITZ, Pedro Ignácio. Migrantes da Amazônia: a tradição Tupiguarani (p. 295-330) In Arqueologia Pré- histórica do Rio Grande do Sul. Org.Arno Kern. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1991

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

A Região Missioneira e os Primeiros Habitantes II

Os Guarani da atualidade, no Museu das Missões em São Miguel das Missões.

O nível cultural dos Guarani se destaca segundo Dionísio Gonzáles Torres (1987: 11-14) não por grandes monumentos ou por escrituras, mas por aspectos culturais que deixaram benefícios a humanidade. Entre conhecimentos, estão como mais importantes a língua, que se difundiu e se mesclou ás línguas latinas da América do Sul, e também, as práticas agrícolas com o cultivo da mandioca, do tabaco, da erva mate, do milho entre outros, além da descoberta das propriedades medicinais de várias plantas nativas.

Quando os missionários da Companhia de Jesus e demais europeus chegaram nessa região não conseguiram compreender o nível cultural dos Guarani dentro do contexto natural em que estes estavam inseridos.
"Esta incompreensão gerou uma falsa idéia – historicamente consolidada – de que os Guarani não possuíam qualquer avaliação econômica, avaliação que marcou profundamente todo o processo histórico das chamadas Missões guarani-jesuíticas da região platina que permanece, de forma anacrônica, até a atualidade.[...] O estudo da Antropologia Econômica sobre sociedades autóctones cultivadoras e a Etnografia Guarani definem um modelo interpretativo confirmado pelos dados inferidos nas fontes documentais. Neste modelo, a familia extensa aparece como unidade de produção e consumo e a circulação econômica entendida como sendo guiada pela lógica da reciprocidade". (CATAFESTO, 2002:213)

Afirmando o que já foi dito acima, a produção econômica dos Guarani por ser baseada em clãs de parentesco com um senso básico de subsistência tinha o cultivo
"(...) feito com uma tecnologia primitiva [...] uma parte das colheitas era perecível e teria de ser consumida imediatamente, mas o milho, os feijões, a mandioca transformada em farinha ou beiju prestar-se-iam ao armazenamento.[...] as colheitas de que se fala não eram totalmente garantidas, pois estavam ameaçadas pela irregularidade climática da região [...] Parece que o Guarani racionalizava o uso da terra de modo a conseguir colheitas de produtos diferentes em diferentes estações do ano (...) ficando uma estação (inverno-começo da primavera?) pouco abastecida, em que recorriam à colheita de produtos do mato (...)". (SCHIMITZ, 1991:308-309)

Fontes:
SOUZA, José Otávio Catafesto de . O sistema econômico na sociedade Guarani Colonial. Horizontes Antropológicos, PPGAS- Porto Aleger, 2002.
SCHMITZ, Pedro Ignácio. Migrantes da Amazônia: a tradição Tupiguarani (p. 295-330) In Arqueologia Pré- histórica do Rio Grande do Sul. Org.Arno Kern. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1991.
TORRES, Dionísio Gonzáles. Cultura Guarani. Assuncion – Paraguai, 1987.

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

A Região Missioneira e os Primeiros Habitantes

Mãe e filha em aldeia guarani mbya . Foto: Milton Guran, 1988.

Para que se compreenda o desenrolar do processo de disputas por território entre portugueses e espanhóis e a conseqüente fundação das missões jesuítico-guarani, é necessário averiguarmos aspectos da cultura da etnia que ocupava as áreas do planalto ás margens dos rios Ijuí e Uruguai, quando da chega da dos europeus: os Guarani. A reconstrução da cultura dessa população pré-histórica segundo vários arqueólogos e historiadores é a mais fácil de se conceber devido à presença constante de aspectos e costumes desse povo desde o decorrer da ocupação do território pelos europeus até os dias atuais.

A partir dos inúmeros estudos realizados sobre a chegada dos Guarani no atual território gaúcho, a teoria mais provável remete a uma gradual migração de levas de indivíduos da família Tupi-guarani da região amazônica, provavelmente por motivos de adversidades naturais, e que se dispersaram dentro do território do atual Brasil, Argentina e Paraguai. Essa migração resulta na ramificação do tronco Tupi-guarani em duas populações com diferenças lingüísticas, econômicas e tecnológicas: a primeira, que ocupou a região do Paranapanema e o litoral leste do Brasil, ou seja, de clima tropical, e uma segunda, que é o alvo da nossa atenção, que ocupou o sul do Brasil e regiões correspondentes aos atuais Paraguai e Argentina, ou seja, em um clima mais frio, o que implicou na modificação da cultura agrícola para sua adaptação ao território.

Segundo estudos arqueológicos “as primeiras aldeias da tradição tupi guarani no Rio Grande do Sul estão ao longo da inflexão do rio Uruguai, no nordeste do estado. Estima-se que as mais antigas remontam ao tempo do nascimento de Cristo ou um pouco depois” (SCHMITZ,1991: 302-303). Quando analisamos o processo migratório guarani, além da busca por melhores terras para aplicação de sua horticultura de subsistência, nos cabe analisar um ponto particular da cultura desse povo, que se expressa na crença da busca de uma Terra-sem-Mal, ou Ivy-Marae, na língua guarani. Na atualidade, muitos estudiosos acreditam que essa crença guarani, que se expressa na procura de um paraíso na terra “(...) onde os alimentos fruíam com permanente fartura e não havia necessidade de trabalhar para plantar e colher”(LESSA, 1984: 1), além de caracterizar ideologicamente o nomadismo dessa população, possa ter influenciado em igual, ou maior proporção, essa dispersão populacional ocorrida a mais de 2.000 anos.

Os Guarani frente as demais etnias (Kaigang e Charrua), que faziam parte do cenário riograndense antes da chegada dos europeus, se destacaram pela elevada complexidade de organização religiosa, familiar, artística e tecnológica. Não se pode ignorar nesse sentido, as demais populações existentes no Rio Grande do Sul naquele momento, bem como suas peculiaridades culturais, mas os Guarani, talvez por um contato anterior com os povos andinos, como acreditam alguns estudiosos, conseguiram se adaptar e tirar da natureza de forma mais elaborada aquilo que necessitavam para sua sobrevivência.
Fontes:
SCHMITZ, Pedro Ignácio. Migrantes da Amazônia: a tradição Tupiguarani (p. 295-330) In Arqueologia Pré- histórica do Rio Grande do Sul. Org.Arno Kern. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1991.
LESSA, Luis Carlos Barbosa. Rio Grande do Sul: prazer em conhecê-lo. Rio de Janeiro: Globo,1984.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Nomes de Ruas e Praças

Praça Rio Branco na década de 20. Hoje a Praça tem o nome de Leônidas Ribas, ou a popular Praça do Brique.


Já acostumamos diariamente a dizer que tal local fica na "Marechal", ou ali na "Marquês" ou então no Calçadão da "Vinte Cinco". Esses nomes se tornam tão familiares que nem paramos para refletir o significado. Porém ele existe e um nome quando falado se perpetua. Nomear as ruas, praças e prédios públicos é uma maneira de "tornar presente" aquele ou aquilo que um determinado grupo institui como exemplo a ser seguido. Uma homenagem a personagens históricos ou da comunidade, que muitas vezes reflete a visão daqueles que detem o poder.
Para quem acha que as ruas da nossa cidade sempre tiveram o mesmo nome vale a pena conferir o ato nº165 do ano de 1925, no qual o intendente Carlos Kruel dá novo nome a algumas ruas, praças e avenidas da cidade.

" Acto nº 165 A de 9 de setembro de 1925
Substitui diversos nomes de praça,
ruas,avenidas e travessas da Villa.

O Dr. Carlos Kruel, Intendente do Município de Santo Ângelo.
Considerando ser contrário à fraternidade dar às ruas, avenidas e praças denominações que relembrem as dissensões que tivemos com as outras nações;
Considerando que na actual nomenclatura das ruas da vila existem nomes de batalhas em que nos empenhamos contra os povos irmãos sul- americanos;
Considerando que em vez de denominações sem significado é preferível designar as vias publicas por nomes que mantenham vivazes os sentimentos civicos da população;
No uso das attribuições que lhe confere o Parágrafo 2º do artigo 18 da Lei Organica,
Decreta
Artigo 1º- Ficam substituídos os nomes das praças Liberdade e Marechal Deodoro;das ruas Julio de Castilhos, General Carneiro, 13 de Maio, Tamandaré, Republica, Itararé, Nova, Humaytá, Dr. Borges Medeiros, Guarany e Itaquarinchin; das travessas Ipiranga, Santo Angelo,Tuyuti e 12 de Outubro e das avenidas 24 de Maio e 14 de Julho, respectivamente pelos de Julio de Castilhos e 20 de Setembro; Marechal Deodoro, 3 de Maio, Barão de Santo Angelo, Marquez de Tamandaré, Basilio da Gama, Antonio Netto, David Canabarro, Florencio de Abreu, Borges de Medeiros, Tiradentes e José Garibaldi; rua 13 de Maio, rua Barão do Triunpho, rua Uruguay e rua 12 de Outubro; Rio Grande do Sul e rua 14 de Julho.
Artigo 2º- Revogam-se as disposições em contrário.
Santo Angelo, 9 de setembro de 1925."
O mais curioso são as justificativas à lei. São períodos históricos que se sobrepõem. Períodos ou fatos que não são mais propícios aos "interesses" locais ou nacionais. Exemplos sempre presentes de como a história se transforma. São as escolhas e desejos daqueles que exercem alguma influência na sociedade, seja ela política, economica ou cultural que dizem daquilo que deve ser lembrado ou esquecido.