sexta-feira, 19 de março de 2010

137 anos de Emancipação Político- administrativa de Santo Ângelo

Vista aérea da cidade - Sudoeste a Nordeste na década de 1960.

A cidade de Santo Ângelo está situada no noroeste do estado do rio Grande do Sul. O inicio da história da cidade está ligada com a fundação em 1707 da redução de San Angel Custódio, a última redução dos Sete Povos das Missões e que localizava-se no atual espaço que compreende a Praça Pinheiro Machado, Catedral Angelopolitana e arredores reconhecido hoje como o Sitio Arqueológico de Santo Ângelo Custódio, centro histórico do município.
San Angel Custódio foi fundada pelos jesuítas, à margem esquerda do rio Uruguai com o povo vindo do atual território da Argentina, da antiga redução de Conceição. Sob a coordenação do Pe. Jesuíta Antônio Sepp, primeiramente em 1706 a redução teria sido fundada na região do atual município de Entre-Ijuis, próximo ao entroncamento dos rios Ijui Grande e Ijuizinho sendo transferida no ano seguinte para a atual Praça Pinheiro Machado e imediações.
As reduções jesuíticas seguiam um plano urbanístico que variava em poucos detalhes entre uma e outra. O modelo padrão consistia em uma rua principal que dava acesso à Igreja que era o prédio mais importante de todo povoado. No centro ficava a praça onde ocorriam os desfiles militares, as encenações religiosas e as festas. Em torno da praça ficavam alinhados os blocos de casas dos índios de forma ordenada, o que permitia o crescimento planejado do povoado. Junto a Igreja ficavam os prédios utilizados pela comunidade. De um lado ficavam a casa dos padres, as oficinas e o colégio, todos com amplos espaços e grandes pátios internos. Do outro lado da igreja ficava o cemitério e o cotiguaçu (casa que abrigava os órfãos e as viúvas). Atrás da Igreja ficava a quinta dos padres onde eram cultivadas hortaliças e árvores frutíferas. Ainda, na periferia das reduções, encontravam-se fontes de água, olarias onde se fabricavam os tijolos de barro chamados adobe e as telhas que serviam para a construção das casas, além de curtumes, açudes, capelas, estâncias e ervais.
O povoado missioneiro de Santo Ângelo Custódio se caracterizava pela semelhança aos demais povoados jesuítico-guarani fundados na região do atual Brasil, Argentina e Paraguai, tendo, porém diferença em relação a localização da igreja, que tinha sua frente voltada para o sul. A moderna Santo Ângelo desenvolveu sua estrutura urbana respeitando o traçado da redução, a Praça Pinheiro Machado ocupa o espaço da antiga praça missioneira, a Catedral atual, moderna e que traz simbologias ligadas à história missioneira, foi construída a partir de 1929 no local da antiga igreja da redução, anterior a ela existiu ainda uma igreja menor construída nas últimas décadas do século XIX pelos primeiros colonizadores.
A História das Missões Jesuíticas no lado oriental do Rio Uruguai, tem seu desfecho com a Guerra Guaranítica em meados do século XVIII, como consequência do Tratado de Madri e a permuta de terras entre Espanha e Portugal. Após a Guerra, durante quase um século o antigo povoado ficou abandonado. O mato cresceu e tomou conta de tudo. Apenas no final da década de 1850 é que chegariam os primeiros moradores que, se utilizando da proposta urbanística e dos remanescentes arquitetônicos do povoado de Santo Ângelo Custódio, ergueriam aos poucos a cidade que conhecemos hoje.
Hemetério da Silveira, que esteve no local da antiga redução em 1859, relata que “o mato que crescera mal permitia avistar de longe, por entre as frondas das árvores, a parte superior do frontispício do antigo templo”. A ocupação do espaço da antiga redução ocorreu nesse mesmo ano de 1959 quando os Srs. Antônio Manoel de Oliveira e o Dr. Antônio Gomes Pinheiro Machado, juntamente com outros descendentes de portugueses que ganharam sesmarias na região, desmataram o local, expondo os remanescentes dos antigos edifícios da redução. Eles aproveitaram as estruturas das construções do velho povoado para erguer no entorno da antiga praça o novo vilarejo. Conforme Hemetério da Silveira em sua última visita à Vila de Santo Ângelo, em 1886, uma das antigas casas de indígenas era aproveitada por uma família pobre, as outras três das quatro que ele havia registrado em 1860, já haviam sido transformadas em casas novas.
A “Villa” Santo Ângelo foi criada pela a Lei Provincial nº 835 de 22 de março de 1873, separando a nova localidade do município de Cruz Alta. A política santo-angelense foi marcada pelo coronelismo característico do período republicano do Rio Grande do Sul até meados da década de 30. O município logo após sua criação abarcava o território das atuais cidades de São Luiz Gonzaga, Santa Rosa, São Miguel das Missões, além de outros municípios menores que se emanciparam posteriormente. A economia do período era essencialmente agrícola e pastoril com produção de lã, erva-mate, fumo, arroz, charque, banha, feijão, milho, farinha de mandioca e de milho, aguardente, couro e vinho.
Foi com a chegada dos quartéis, da luz elétrica, do telégrafo, da rede telefônica e a construção da ponte sobre o rio Ijui, nos primeiros anos do século que a cidade começou a se modernizar e se expandir. Nesse período ocorreu a chegada de novos colonos europeus que provocaram uma profunda mudança cultural e econômica, com ênfase para as pequenas propriedades agrícolas e uma grande explosão demográfica.
Mas foi a partir de 1921 que se desenvolveria a cidade para o lado norte, com a chegada do trem. A estrada de ferro marcaria um novo período histórico com a vinda de colonos alemães e o desenvolvimento do comércio e da industria, já que o trem possibilitava a exportação dos produtos. Destacaram-se nesse período industrias como a Sociedade de Banha Sul-rio-grandense Ltda; Sociedade Algodoeira Sul-rio-grandense Ltda. Comercial Braatz (ferragens em geral); Indústria de torrefação e moagem de café; moinho de Trigo entre outras.
O prédio da Estação Ferroviária, atual Memorial Coluna Prestes, foi construído por Gildo Castelarin, tendo como base um projeto arquitetônico realizado por uma Companhia Inglesa, sendo inaugurada em 16 de outubro de 1921. Além do desenvolvimento econômico do município o prédio representa um dos fatos mais importantes ocorridos a nível nacional durante a República Velha. Foi no interior do prédio que aconteceram as primeiras reuniões que levaram ao levante do 1º Batalhão Ferroviário, no movimento que ficou conhecido nacionalmente como Coluna Prestes, liderada pelo “Cavaleiro da Esperança”, Luis Carlos Prestes, que atuava na cidade como engenheiro. A marcha da coluna percorreu mais de 25000 Km Brasil adentro, denunciando o modelo coronelista, corrupto e injusto do governo da “república do café com leite”. Foi também da Estação Férrea que em 1930 partiram as forças revolucionárias da região, que levaram Getúlio Vargas à presidência da república.
A História de Santo Ângelo é riquíssima e possibilita acompanhar diferentes períodos históricos da formação do Brasil. Ao longo desses mais de 300 anos ela perpassa desde o período colonialista da catequese jesuítica ao período do governo imperial, da imigração européia ao coronelismo, da industrialização do país a participação em revoltas políticas. Esse passado permanece ainda hoje expresso nos locais de memória, nos achados arqueológicos, nas ruas da cidade, na arquitetura e principalmente na cultura e na identidade da comunidade santo-angelense.

Referências:
YUNES, Gilberto Sarkis. Santo Ângelo 1897: Povoação Inicial e Reconstituição do Traçado da Vila. 1994.
BRUXEL, Arnaldo. Os trinta povos Guaranis. Porto Alegre: EST/Nova Dimensão, 2ª ed. 1987.
Documentos do acervo do Arquivo Histórico Municipal Augusto César Pereira dos Santos.
*Texto publicado originalmente no site: www.cantomissioneiro.com.br

Um comentário:

  1. irenemodelista@hotmail.com8 de março de 2013 09:05

    Nasci em Santo Angelo,me criei com a familia basso,estudei na escola Onofre Pires,participei da festa que comomorava o centenário de Santo Angelo,cantava na catedral,hoje resido em sapucaia do sul,a familia que me criou foi embora para cuiaba no mato grosso e perdi o contato,gostaria de rever as pessoas que marcarão minha imfancia.ass.Irene dos santos caetano

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